vistodaprovincia

1.21.2016

Histórias de indisciplinados numa escola portuguesa.


Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. As pessoas apresentadas são personagens de recorte alegadamente literário e não tem correspondência a alunos reais. As bengaladas da ilustração são recurso puramente metafórico.

Imaginem a cena. Uma sala de aula. Carteiras em fila. Gente sentada a olhar para um quadro verde. 

Frente ao quadro, um professor relativamente jovem explica um assunto complexo. Gesticula bastante e vai escrevinhando uns números no quadro com um pau de giz. Aparenta estar com entusiasmo a explicar aos outros uma ideia nova, que lhe parece ser interessante para eles. A voz bastante modulada, mas roufenha do cansaço do dia de 6 horas de aulas, fala de eleições, representação, votações, de Democracia e de como a melhorar na escola.

Nas primeiras filas alguém toma notas com interesse e alguns fazem perguntas. Nas carteiras do fundo da sala, há gente a falar.

Indisciplinado 1 – o estilo “estou aqui, mas não me vejam”

Um deles desenrolou-se, há uma hora atrás, como uma lesma esticada, espalhando-se num longo espasmo, na cadeira, frente a um écran de computador que tacteia, com desdém pelo objeto e pelos que assistem. 

Desde que o professorzeco foi gesticular para a frente do quadro e fazer rabiscos na superfície verde, virou-se ostensivamente de costas. Continua, estirado, alapadas as costas em arco, com ar de quem foi abençoado com o relaxe e desleixo de todos os dons da preguiça e da indiferença. Forma clara de evidenciar que, se os minutos anteriores a esse discurso docente lhe interessavam pouco, e nem o motivavam a levantar a cabeça, a arenga, que agora começou, lhe interessa ainda menos.

- “O que ele quer sei eu!” – a frase senha do comediante que se assume palhaço passou-lhe ainda há pouco pela ideia. “Democracia, era nem ter de o ouvir. Isso é que era!”. A ideia de tapar com rolha, quem assim o incomoda, quase lhe enrijeceu o ânimo mas a moleza do hábito afastou-o desse caminho, muito pouco trilhado.

O mensageiro só lhe merece desprezo e, por atacado, junta-o à mensagem. Quem conhece a mente, que alastra nesse corpo dengosamente estirado, sabe que tem ambições de líder e que, quando fala, gosta de ser ouvido, reverenciado e que a plateia reaja como se fosse louvada e benta eminência parda do grupo dos que se juntam naquela sala de aula. Participar, é para ele falar sem correr o risco de ter de fazer coisa que se veja. Mas, quando abre a boca, transpira segurança e conhecimento, mesmo que pouco se eleve da vacuidade. Mas agora olha para o computador.

Indisciplinado 2 – o estilo “escrita criativa”

O seu colega da cadeira do lado também nutre desprezo semelhante pelo artista docente do pau de giz, que agora discorre sobre um assunto qualquer, que lhe parece filosofia barata, a meio caminho entre o Sócrates de Atenas e o das casas de Paris. Vê-se no rosto que só o ouve porque tal obrigação lhe está a ser imposta. Conhece a peça falante há muitos anos e, nesta fase da sua vida, fechado naquela sala de aula, já não está para que o chateiem. Às vezes, até participa e diz coisas acertadas, mas só quando lhe apetece e, ultimamente, apetece-lhe pouco. 

Há minutos, interveio sobre Democracia e Liberdade, e a fala vinha a propósito, mas percebeu que o discurso soou frágil porque os outros, que o conhecem, ligaram pouco. 

Então, agora, decidiu que vai sabotar a intervenção seguinte do docente instalado frente ao quadro. Para mais, nunca explicou porquê, o estilo e atitude do “gajo” que está a falar no quadro soa-lhe odienta e já não o esconde. Não será caso para chegar a erguer uma fogueira, metafórica ou real, e fazer, logo ali, um churrasco pouco democrático à moda dos de S. Domingos com os cátaros mas, realmente, não está para aturar aquela exibição e as perspectivas de trabalhos e mudanças de hábitos que estão a nascer à sua frente. 

Ainda para mais, não quer fazer comentários, não vá a voz do outro, que ressalta nos tijolos burros das paredes da sala, obrigá-lo a mostrar a sua ignorância do assunto, que vai ouvindo explicar em fundo. 
E, logo ali, à frente dos seus colegas!

Um par forma-se por comuns interesses literários. Estilo 3 – o gargalhar 

A dada altura, acha que o melhor, para desfastio, é escrever num papel uma mensagem divertida para o deleite do colega que continua relaxado na cadeira, absorto na nulidade dos seus pensamentos. Antes de lhe passar o texto, garatujado em velocidade nervosa, aponta para o orador do quadro e ri-se, escarninho. Sussurra umas palavras desagradáveis, bem audíveis, até pelo outro que continua no quadro a falar, e repete-as, mais alto, apontando para o visado, quando percebe que ele está a olhar. O papel, com dizeres que se adivinham a gozar com quem fala, de tanto que vão apontando para ele, continua a circular. 

Na volta do correio, o esparramado, manifesta, pela primeira vez, desde há longos minutos, interesse por alguma coisa e ri-se para o interlocutor, autor do escrito, apontando primeiro para o papel e depois para o orador no quadro. O gozo continua e amplifica-se quando uma outra colega, sentada ao lado na última fila, decide entrar na conversa e rir-se também do papel e a olhar para o fulano do quadro. O tipo não se cala, mas olha para eles de forma fixa, talvez a lamentar a tropa fandanga com quem tem de se entender.

Agora, o tal palrador do giz deu em virar-se para a audiência a fazer perguntas e tentar obrigá-los a sair da sua modorra, para não permitir o gozo dos de trás. 

Na última fila, continuam a apontar para ele e não ligam ao assunto. O papel é mais interessante e, pelo gargalhar do trio, bem divertido.

O que não tem remédio, remediado está…..

O que fazer a estes indisciplinados? Não ligar? 
Recomendar que atinem, dado que o comportamento é recorrente naquela sala e noutras por onde passam? 
Mandá-los para a rua, com falta de tipo disciplinar e consequente participação? 
Fazer um sermão a apelar a Santa Maria ou outras entidades divinas ou terrenas, por conta do desrespeito e falta de consideração a quem até se esforça mas calhou de não cair no goto dos heróis impolutos dos fundos da sala? 
Participar por escrito, com base num normativo qualquer que a sacrossanta tutela terá inventado, para ver se são chamados à direção e alguém por lá lhes arranja castigo, colinho ou apoio psicológico?

A queirosiana possibilidade das bengaladas está sempre, obviamente, posta de parte. Há sempre a hipótese de os desprezar, mas a obrigação do convívio, impede radicalismo. Além disso, a sua má postura motiva-os a fazerem-se notar.

Pois é, mas antes que alguém responda às perguntas retóricas anteriores, uma nota apenas: 
Quando é que se disse, neste conto edificante, que os exibicionistas da última fila, mesmo ficcionados numa sala de aula, estavam numa aula e eram ficções de alunos? Só viram destas coisas, em aulas e com os alunos? Ora pensem lá melhor…

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11.11.2015

Aos 20 anos na profissão docente sou novo e insensato demais para se atender ao que diga.


 O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída:
todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis
de contentar nas outras coisas não costumam desejar
 mais bom senso do que aquele que têm.
 
René Descartes 
 
Este texto vai ser sobre mim. Todos os textos são sobre o seu autor, mesmo aqueles que falam de assuntos abstratos.

Mas este vai ser mesmo sobre mim. Afinal um blogue é um espaço de opinião pessoal em que temos o direito a alguma introspeção.

O aviso fica feito mas creio que, sendo sobre uma pessoa concreta, talvez possa ter algo a ver com o geral dos professores da minha geração e sobre o valor que a nossa participação tem e recebe.

A conclusão, que me deram a ouvir, há dias, de forma que pretendia ser incisiva, neste mês, em que passam 20 anos exatos sobre a minha primeira aula, é que sou novo de mais e, por isso, o que quer que diga sobre escola: não interessa nada.

Pelos vistos, não terei idade para opinar sobre a forma como se gere e funciona uma escola ou como devem ser organizados os seus processos.

Esta minha afirmação de mocidade imberbe é a feliz constatação conclusiva de uma conversa, que tive recentemente, no contexto em que discutia (advogando contra elas) medidas de gestão numa escola. Foi a resposta que levei e que reconheço que me calou de forma definitiva.

Até porque a minha alegada juventude (que contrasta com as rugas na testa e os vincos nos cantos dos olhos) não tem remédio. Porque não posso envelhecer-me artificialmente.

A erupção pública, ao ponto de me ser assacado, deste meu “síndroma de ignorância juvenil sobre assuntos na minha profissão” surge, curiosamente, na altura em que completo 2 décadas nela.
 
 
 

20 anos de escola mais os outros 23 antes


Comecei a lecionar em 1995.

Bisneto, neto e filho de professoras e de professores cresci a ouvir contar histórias de escola, a almoçar com problemas de escola, a jantar, ao som de debates de escola.

Ao entrar para História, recusava a ideia de que iria dar aulas. Porque a exposição precoce à escola, pelo lado dos que dela fazem profissão, e às suas tristezas e amarguras, me fez achar que não era para mim.

Na Faculdade, fugi ao Ramo Educacional (há-de haver alguém, no grupo 400, que não conheço, e que, hoje, tem mais 2 ou 3 valores de graduação por eu ter escolhido não fazer as cadeiras pedagógicas e o estágio nessa altura, sendo que entrava lá direto).
 
E isso, porque, dar aulas, incluía pensar no sofrimento que via que a escola trazia aos que nela vivem a vida toda. Principalmente o da minha Mãe, que amando profundamente a ideia de escola, destruiu a sua saúde no processo.

Contudo, como para ela, ambos pouco dados a místicas esotéricas, a escola não foi para mim (nem é) vocação, no sentido em que os religiosos são chamados a qualquer coisa elevada.
 
É uma escolha que o tempo produziu, nas circunstâncias históricas da própria vida. E que tem de ser confirmada regularmente, face às alternativas.

Ainda durante o curso, fui repórter numa rádio e, acabado o curso, fui comerciante. Ainda hoje o seria (ou outra coisa qualquer) se o acaso (não o Destino, entenda-se) não se tivesse interposto. E poderei rever as escolhas sem frustração ou grande drama.

Um passeio de bicicleta, um cachorro à solta, frente à roda, e eis-me com uma fratura femural “de velho”, quase um ano sem andar e a reaprendê-lo em sessões diárias penosas. E reaprender o que todos acham banal e comum, ensina muito sobre a aprendizagem. (Parêntesis para sugerir a leitura de Oliver Sacks e o seu  livro Perna para que te quero , que ajuda a entender bem coisas destas).

Meses em casa, sem nada para fazer, num tempo sem TV cabo, e eis que a minha Mãe se sai com a ideia de concorrer nos mini-concursos. Lá lhe fiz a vontade.

Um professor, mesmo um que começou coxo, coxo continua a caminhar


Escola Gomes Teixeira, no Porto, em 1995.
 
Fila para o concurso, uns 600 candidatos de papéis na mão. Uns minutos de espera na fila, com muletas, mas a pé, eu a desistir (afinal não estava ali senão para fazer a vontade à minha mãe) e a multidão, à volta, começa a dizer que não é justo que um tipo visivelmente aleijado, nem tenha uma cadeira para se sentar.
 
Essa foi a 1ª vez que experimentei uma das virtudes coletivas solidárias do meu grupo profissional, como parte dele.

A funcionária, chamada para fornecer o assento, volta com a cadeira e, face à turbulência, com a menção adicional: não precisa de ficar na fila, tem direito a atendimento preferencial. Como comecei coxo, às tantas, é por isso que as minhas opiniões continuam coxas, agora, não por causa das muletas, mas da juventude excessiva.

No contexto, em que não tinha assim tanta esperança de voltar a andar, ser especial na fila, deu-me tristeza, mas poder sair dali depressa, lá me deu alento para arrastar a perna solta até ao balcão e entregar a papelada. Meses depois, já sem muletas, a perna bamboleante levou-me à primeira escola e à primeira turma.

Descobri que gostava daquilo que, na infância, me parecia uma profissão assustadora, no custo emocional e pessoal. E parece que até tenho algum jeito....

Corri algumas escolas (estive colocado numas 12), trabalhei num centro de formação profissional, fui formador, passei pela gestão de uma IPSS, com creches e jardins de infância, e pela direção de uma escola TEIP e, aos 43 anos, acumulei uns milhares de horas de formação sobre educação e gestão de escolas em politécnicos, universidades e centros de formação. Passei por outro Ministério (Administração Interna) 6 anos e, por lá, aprendi como é triste e desengonçada a burocracia central, regional e local do nosso MEC. E poupo-vos a mais detalhes entediantes desse currículo que tem como ponto forte uns 4000 e tal alunos que podendo dizer mal de mim, nunca me foram indiferentes. 
 

Prenda dos 20 anos: continuar a estudar

 
Tudo isto para dizer: esforcei-me para não parar ou estagnar e aprender alguma coisa no caminho, atitude que mantenho todos os dias. Não sou o melhor professor mas, pelo menos, o melhor que posso ser (e, às vezes, sinto, o melhor que me deixam ser). Não acredito em Excelências, como estado que se atinja, mas em melhoria e progresso.

A formação que fiz foi mesmo estudada (e não "certificada pela via da experiência", como Bolonha anda a permitir – mal - com base em “relatórios de vida” com 50 páginas). Até porque, um professor que não acredita em estudar é como um padre que não acredite ou um cozinheiro que recuse o tempero.

Mas, aos 20 anos disto, acho que conheço razoavelmente o bom e o mau da nossa profissão. O momento histórico que vivemos talvez me esteja a influenciar no juízo com aromas pessimistas mas de fundo alegre.
 
Valemos pouco no contexto social e, se tivesse dúvidas de me alegrar com a comemoração, uma simples conversa de circunstância sobre questões de escola reforçou a alegria: além de ter falta de bom senso, na reflexão sobre escola (leia-se, na minha linha de leitura - ainda não estou suficiente enquistado e penso demasiado fora da opinião comum) sou novo demais para quem, com uns 55 ou 56 anos, olha para a minha opinião singela, com a sobranceria voluntária e deliberada, de mais 10 anos em cima.

Resta-me o consolo de que não faço o mesmo aos, poucos, que são mais novos que eu. Acredito que, por exemplo, os contratados de 20 ou 30 anos, com quem trabalhei, terão percebido que não acredito em sabedorias adquiridas por via etária ou geracional mas pelo estudo e pela experiência crítica, guiada por este.

E que, quando lidava mais com colegas mais novos não lhes colava na testa etiquetas com idades, para lhes desvalorizar as opiniões. Mesmo tendo mau feitio q.b. para não concordar com eles.

Argumentos de autoridade, sem explicação ou fundamento, que se entendam, para lá da adesão a modas, são a negação da própria profissão.

Aliás, para ensinar os alunos, a simples autoridade "de saber e poder" é mau mecanismo.

Como diria a minha Mãe, do alto dos seus 35 anos de experiência: muitos anos de má experiência, não valem uma boa formação.

E, por isso, a minha comemoração dos 20 anos, até em homenagem a ela, foi voltar ao estudo. Porque, neste trabalho, o suposto bom senso, por conta de muitos anos e idade, não chega e é realmente muito pouco. Ou poucochinho…

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